A toca santa
Por diversas vezes o Sr. Adelmo Trott nos falara de uma gruta milagrosa, no lugar chamado Catanduva, bem no limite entre os municípios de Taquara e Santo Antônio da Patrulha. Dizia que era um lugar lendário, desde os tempos primordiais. Nesta gruta da santa, os antigos jesuítas teriam escondido ouro. Os índios teriam deixado ali as ossadas dos seus mortos. Cerca de 50 anos atrás, uma autoridade local mandara juntar os ossos dos índios, para enterrá-los junto ao pé da gruta.
Em tempos idos, este lugar se tornou um santuário. Lá os primeiros missionários conhecidos aqui na região, os padres jesuítas José Sato e João Curis, que vieram da Argentina, em 1842, e pregaram as missões em Santa Christina do Pinhal, em 1843, entronizaram na gruta uma estátua de Nossa Senhora, que pelo povo foi chamada Nossa Senhora da Data. Desde então, começaram as peregrinações para a Toca Santa. Ali acendiam velas e pagavam promessas. Cada ano, no dia 2 de fevereiro, na festa de Nossa Senhora dos Navegantes, ali era festejada a padroeira do lugar. O povo fazia uma solene procissão com a imagem da santa, levada num andor até o sopé do morro, como os missionários haviam recomendado.
Foi também, num destes encontros solenes, em que o povo se reunira em oração e festa, que duas famílias rivais, a dos Chico e a dos Alano, entraram numa grande briga. A dosChico residia em Olhos D'água, e a dos Alano, ao sopé do morro da gruta. Já tinham vindo à festa com a intenção de acertar velhos desacertos. Houve uma formidável tiroteio e houve mortos de ambos os lados. Foi também atribuído a estes mortos, que o povo dizia, existirem as ossadas, que posteriormente foram encontradas na gruta. Devido a este crime, contam hoje ainda, é que pesa a maldição sobre o luga, e, a Toca Santa se tornou mais lendária ainda.
Segundo o Sr. Adelmo, depois daquele tiroteio e mortandade entre a família dos Chico e dos Alano, por muito tempo as solenes procissões com a santa, foram suspensas pelas autoridades locais.
Quando outro dia o Sr. Adelmo novamente me falou desta gruta maravilhosa, fiquei curioso, e tive vontade de visitá-la. E, foi o que decidi fazer, em companhia de minha esposa e de minha cunhada Rosa. Achei, que pisar nas mesmas pegadas e subir os mesmos degraus, já pisados por tantos missionários e inúmeros devotos, há quase dois séculos, levando preces, flores e velas, sem dúvida, valeria à pena. Lugares santificados pelo povo, sempre merecem o nosso respeito e apreço. Pois, Deus já dissera ao antigo profeta: "Tira as tuas sandálias, porque o lugar que pisas é santificado".
Pois bem, combinado o dia, de manhã bem cedo, peguei o meu carro, e lá fomos ver a toca Santa de Catanduva, para ver se poderíamos acrescentar algo às informações já recebidas do Sr. Adelmo, ou quiçá só para matar a nossa curiosidade.
Da estrada de Taquara a Porto Alegre, lá onde o Rio Paranhana desemboca no Rio dos Sinos, dobrando à esquerda, na direção de Catanduva, são apenas 16km até o morro da Toca Santa.
Já no caminho, paramos diversas vezes , para nos informarmos sobre o acesso ao local. Bem antes de chegarmos lá, paramos numa banca de frutas, onde havia alguns homens de idade, entre os quais um senhor, que disse ser da família Lehn. Nos contou ele que, atualmente, tem 78 anos, e que aos 14, presenciara a festa em que os Chico e os Alano se mataram. Notei logo que a história do Sr. Adelmo não fora tão mal contada, e que estava na pista certa. As coisas encaixavam umas nas outras.
Chegados mais perto do morro indicado, fomos muito felizes de encontrar um excelente guia e batedor. Paramos e, quasepor acaso, topamos com o Sr. Faustino Inocente, antigo morador local, e profundo conhecedor das coisas da região. Foi muito gentil, e se dispôs de imediato a nos acompanhar e ser nosso guia.
Já na subida para a gruta, o Sr. Faustino confirmou e ratificou diversos dados curiosos, que já havíamos colhido sobre o histórico da Toca Santa. Confirmou o fato da grande briga entre as famílias dos Chico e dos Alano. Até afirmou que possuía uma espada, tipo adaga, que tinha sido usada no dia da mortandade. Disse que a espada era uma relíquia, e que ele não a daria por dinheiro algum. Vou dedicar um rápido capítulo à parte sobre esta relíquia, que de fato existe.
Na subida ao morro, em conversa animada, o Sr. Faustino também contou que no dia 2 de fevereiro, cada ano, alguns moradores ainda se reúnem ali, para os festejos de Nossa Senhora dos Navegantes.
Acrescentou também diversos fatos novos. Que, não há muito tempo, veio uma tuma de Igrejinha, procurando pelo local, dizendo que gostariam de acampar ali de noite. Mas lhes foi dito que ninguém costumava acampar ali de noite. Estes, porém, insistiram, e ficaram lá alguns dias. Trouxeram instrumentos sofisticados, com os quais teriam detectado metais preciosos, e quiçá, o "ouro dos jesuítas". Faustino até mostrou o local, em uma fenda da rocha, de onde teriam tirado o ouro.
Constatamos, de fato, que a gruta se encontra no mais absoluto abandono e desordem, deixada pelos vândalos. O pedestal da santa, derrubado e quebrado. Buracos profundos de escavações no chão. Tocos e restos de velas em cima de cavacos de pedra. Não sei se deixados pelos vândalos ou pelos devotos. E nada da tão desencantada santa. O Sr. Faustino diversas vezes repetiu que "era uma santa tão linda, tão lida, uma menina moça", segundo os próprios termos dele, "de indescritível beleza". Perguntei o que tinha acontecido com a santa. Foi então que, o nosso guia nos contou com respeito e comoção, o que aocntecera com ela: "Anos atrás, meu caro amigo, um morador daqui da região, cujo nome não posso revelar, teve uma forte dor de dente. Alguns supersticiosos lhe disseram que, para acabar com a dor, ele teria que quebrar o pescoço de uma santa e jogá-la fora. O infeliz subiu na gruta da santa e fez o que lhe haviam sugerido. Quebrou o pescoço da santa e jogou-a fora..." E então o Sr. Faustino, em voz sumida e cabisbaixo, murmurou: "Meu senhor, três dias depois, o capeta levou o miserável. Morreu com o pescoço entortado".
E continuou lamentando: "Olha, minha gente, desde então, a gruta está sem sua santa. É um crime..."
Posso confirmar que a gruta é, de fato, uma obra da natureza de Deus. O interior de sua abóbada, acredito, mede mais ou menos a metade do interior da Igreja Matriz de Taquara.
O santuário está destruído. Há também restos de pedras escavadas na subida para a gruta. São degraus feitos por devotos em tempos idos. Podem ser obra de algum monge, que temporariamente ali se abrigasse.
Faustino contou que, a luta entre os Chico e os Alano, iniciara dentro da gruta, mas as mortes mesmo, tinham acontecido na subida do morro. E acrescentou: "Foram estas mortes que trouxeram a maldição para este lugar".
Nosso guia também falou que, recentemente, diversas professoras de Taquara traziam crianças para visitar o local. Um trator atrelado num vagão, era gentilmente cedido pela Secretaria de Turismo do município, para esta finalidade. E as crianças faziam a maior festa na Toca Santa.
Depois de escutar com muita atenção todos os relatos do Sr. Faustino, convidei os presentes, para recitarmos algumas preces neste local, onde, há duzentos anos, tantas orações haviam sido elevadas a Deus. E, foi o que fizemos, todos com muita devoção... "Para que o local volte a ser oq ue já foi, não um covil de ladrões e curiosos, mas uma Toca Santa"...

