4.11.05

A toca santa

Por diversas vezes o Sr. Adelmo Trott nos falara de uma gruta milagrosa, no lugar chamado Catanduva, bem no limite entre os municípios de Taquara e Santo Antônio da Patrulha. Dizia que era um lugar lendário, desde os tempos primordiais. Nesta gruta da santa, os antigos jesuítas teriam escondido ouro. Os índios teriam deixado ali as ossadas dos seus mortos. Cerca de 50 anos atrás, uma autoridade local mandara juntar os ossos dos índios, para enterrá-los junto ao pé da gruta.
Em tempos idos, este lugar se tornou um santuário. Lá os primeiros missionários conhecidos aqui na região, os padres jesuítas José Sato e João Curis, que vieram da Argentina, em 1842, e pregaram as missões em Santa Christina do Pinhal, em 1843, entronizaram na gruta uma estátua de Nossa Senhora, que pelo povo foi chamada Nossa Senhora da Data. Desde então, começaram as peregrinações para a Toca Santa. Ali acendiam velas e pagavam promessas. Cada ano, no dia 2 de fevereiro, na festa de Nossa Senhora dos Navegantes, ali era festejada a padroeira do lugar. O povo fazia uma solene procissão com a imagem da santa, levada num andor até o sopé do morro, como os missionários haviam recomendado.
Foi também, num destes encontros solenes, em que o povo se reunira em oração e festa, que duas famílias rivais, a dos Chico e a dos Alano, entraram numa grande briga. A dosChico residia em Olhos D'água, e a dos Alano, ao sopé do morro da gruta. Já tinham vindo à festa com a intenção de acertar velhos desacertos. Houve uma formidável tiroteio e houve mortos de ambos os lados. Foi também atribuído a estes mortos, que o povo dizia, existirem as ossadas, que posteriormente foram encontradas na gruta. Devido a este crime, contam hoje ainda, é que pesa a maldição sobre o luga, e, a Toca Santa se tornou mais lendária ainda.
Segundo o Sr. Adelmo, depois daquele tiroteio e mortandade entre a família dos Chico e dos Alano, por muito tempo as solenes procissões com a santa, foram suspensas pelas autoridades locais.
Quando outro dia o Sr. Adelmo novamente me falou desta gruta maravilhosa, fiquei curioso, e tive vontade de visitá-la. E, foi o que decidi fazer, em companhia de minha esposa e de minha cunhada Rosa. Achei, que pisar nas mesmas pegadas e subir os mesmos degraus, já pisados por tantos missionários e inúmeros devotos, há quase dois séculos, levando preces, flores e velas, sem dúvida, valeria à pena. Lugares santificados pelo povo, sempre merecem o nosso respeito e apreço. Pois, Deus já dissera ao antigo profeta: "Tira as tuas sandálias, porque o lugar que pisas é santificado".
Pois bem, combinado o dia, de manhã bem cedo, peguei o meu carro, e lá fomos ver a toca Santa de Catanduva, para ver se poderíamos acrescentar algo às informações já recebidas do Sr. Adelmo, ou quiçá só para matar a nossa curiosidade.
Da estrada de Taquara a Porto Alegre, lá onde o Rio Paranhana desemboca no Rio dos Sinos, dobrando à esquerda, na direção de Catanduva, são apenas 16km até o morro da Toca Santa.
Já no caminho, paramos diversas vezes , para nos informarmos sobre o acesso ao local. Bem antes de chegarmos lá, paramos numa banca de frutas, onde havia alguns homens de idade, entre os quais um senhor, que disse ser da família Lehn. Nos contou ele que, atualmente, tem 78 anos, e que aos 14, presenciara a festa em que os Chico e os Alano se mataram. Notei logo que a história do Sr. Adelmo não fora tão mal contada, e que estava na pista certa. As coisas encaixavam umas nas outras.
Chegados mais perto do morro indicado, fomos muito felizes de encontrar um excelente guia e batedor. Paramos e, quasepor acaso, topamos com o Sr. Faustino Inocente, antigo morador local, e profundo conhecedor das coisas da região. Foi muito gentil, e se dispôs de imediato a nos acompanhar e ser nosso guia.
Já na subida para a gruta, o Sr. Faustino confirmou e ratificou diversos dados curiosos, que já havíamos colhido sobre o histórico da Toca Santa. Confirmou o fato da grande briga entre as famílias dos Chico e dos Alano. Até afirmou que possuía uma espada, tipo adaga, que tinha sido usada no dia da mortandade. Disse que a espada era uma relíquia, e que ele não a daria por dinheiro algum. Vou dedicar um rápido capítulo à parte sobre esta relíquia, que de fato existe.
Na subida ao morro, em conversa animada, o Sr. Faustino também contou que no dia 2 de fevereiro, cada ano, alguns moradores ainda se reúnem ali, para os festejos de Nossa Senhora dos Navegantes.
Acrescentou também diversos fatos novos. Que, não há muito tempo, veio uma tuma de Igrejinha, procurando pelo local, dizendo que gostariam de acampar ali de noite. Mas lhes foi dito que ninguém costumava acampar ali de noite. Estes, porém, insistiram, e ficaram lá alguns dias. Trouxeram instrumentos sofisticados, com os quais teriam detectado metais preciosos, e quiçá, o "ouro dos jesuítas". Faustino até mostrou o local, em uma fenda da rocha, de onde teriam tirado o ouro.
Constatamos, de fato, que a gruta se encontra no mais absoluto abandono e desordem, deixada pelos vândalos. O pedestal da santa, derrubado e quebrado. Buracos profundos de escavações no chão. Tocos e restos de velas em cima de cavacos de pedra. Não sei se deixados pelos vândalos ou pelos devotos. E nada da tão desencantada santa. O Sr. Faustino diversas vezes repetiu que "era uma santa tão linda, tão lida, uma menina moça", segundo os próprios termos dele, "de indescritível beleza". Perguntei o que tinha acontecido com a santa. Foi então que, o nosso guia nos contou com respeito e comoção, o que aocntecera com ela: "Anos atrás, meu caro amigo, um morador daqui da região, cujo nome não posso revelar, teve uma forte dor de dente. Alguns supersticiosos lhe disseram que, para acabar com a dor, ele teria que quebrar o pescoço de uma santa e jogá-la fora. O infeliz subiu na gruta da santa e fez o que lhe haviam sugerido. Quebrou o pescoço da santa e jogou-a fora..." E então o Sr. Faustino, em voz sumida e cabisbaixo, murmurou: "Meu senhor, três dias depois, o capeta levou o miserável. Morreu com o pescoço entortado".
E continuou lamentando: "Olha, minha gente, desde então, a gruta está sem sua santa. É um crime..."
Posso confirmar que a gruta é, de fato, uma obra da natureza de Deus. O interior de sua abóbada, acredito, mede mais ou menos a metade do interior da Igreja Matriz de Taquara.
O santuário está destruído. Há também restos de pedras escavadas na subida para a gruta. São degraus feitos por devotos em tempos idos. Podem ser obra de algum monge, que temporariamente ali se abrigasse.
Faustino contou que, a luta entre os Chico e os Alano, iniciara dentro da gruta, mas as mortes mesmo, tinham acontecido na subida do morro. E acrescentou: "Foram estas mortes que trouxeram a maldição para este lugar".
Nosso guia também falou que, recentemente, diversas professoras de Taquara traziam crianças para visitar o local. Um trator atrelado num vagão, era gentilmente cedido pela Secretaria de Turismo do município, para esta finalidade. E as crianças faziam a maior festa na Toca Santa.
Depois de escutar com muita atenção todos os relatos do Sr. Faustino, convidei os presentes, para recitarmos algumas preces neste local, onde, há duzentos anos, tantas orações haviam sido elevadas a Deus. E, foi o que fizemos, todos com muita devoção... "Para que o local volte a ser oq ue já foi, não um covil de ladrões e curiosos, mas uma Toca Santa"...

22.10.05

Um saco de sal

Uma coisa que em criança sempre me impressionada muito, era ouvir meu pai ou meu avô falar dos sofrimentos dos velhos tios, nossos antepassados.

Nos invernos frios, quando o vento minuano soprava lá fora, quando toda a família estava sentada junto ao fogão de lenha, papai remexendo lentamente as brasas que aqueciam as chaleiras de água, contava tantas histórias bonitas dos antigos. E, parece que a melancólica lâmpada de querosene, pendurada no canto da cozinha, dava um tom ainda mais solene às histórias. O silêncio da noite, sem luz elétrica, sem rádio e sem televisão, dava um sentido mais profundo a tudo aquilo que saía dos lábios dos velhos. E nós, crianças, escutávamos com a máxima atenção os contos e as narrativas.

Meu pai falava muito da vida do avô Felipe. No tempo dele, tudo era mais difícil. Quando ele começou no mato de Rio da Ilha, faltava tudo, tudo mesmo. Fugido da Estância Miranda, estava com a constante ameaça dos soldados do Capitão Soares. Ele e os seus irmãos, evitavam, o mais possível, ir para São Leopoldo ou Porto Alegre, comprar as coisas mais necessárias. Viajavam no máximo, uma vez por ano. No tempo das grandes enchentes, nas cheias do Rio dos Sinos, juntavam as toras de madeira que tinham preparado durante o ano, amarravam-nas em balsas, e navegavam rio abaixo. As madeiras eram dos tipos mais nobres, que na época existiam em abundância na região, como angico, cedro, grápia, açoita cavalo, ipê, etc. Em São Leopoldo eram vendidas para as serrarias e transformadas em valioso material de construção. Meu pai falava muito dos perigos e peripécias que o avô passava em cima dessas balsas de madeira. Com pedaços de couro, improvisavam alojamentos por riba da madeira roliça. Farinha de mandioca e algum peixe, pescado no rio, era o alimento mais usado.

Em São Leopoldo, com o dinheiro irrisório que recebiam pela madeira, compravam as coisas mais necessárias para seu sustento no mato. E o mais necessário para eles era o sal e a pólvora. Tudo o mais até podia faltar. Mas estes dois elementos, eram indispensáveis. Sal para salgar a comida. Pólvora, para se defenderem contra os bugres e os animais bravios. Pólvora também, para eventualmente abaterem alguma caça, para o alimento que havia em abundância nas margens dos rios e nas matas de Rio da Ilha.

Sabemos que os índios não usavam sal, mas cinza para salgar e conservar os seus alimentos. Mas os colonos não podiam dispensar o sal.

E então, começava a penosa volta para casa, rio acima. Carregando um saco de sal nas costas, com a espingarda na mão, o facão na cintura, as calças arregaçadas... Eram caminhadas de três a quatro dias, pelas margens do rio. De noite, dormiam em choupanas, feitas por eles mesmos, de paus e bambus, ao longo do caminho. Frutas silvestres, peixes e alguma caça supriam as refeições necessárias. De noite, de tempo em tempo, alguma onça esfomeada rugia nas proximidades. Chegava até a esgravatar nas paredes das choupanas. O fogo era mantido aceso para espantar os mosquitos e pernilongos. O fósforo não existia na época, e o fogo era aceso com pedaços de lima, friccionados nas chamadas pedras de fogo. Ervas do mato: guaco, marcelinha do campo, carqueja... eram colhidas e cozinhadas como chá, e usadas como bebidas cotidianas.

"E não pensem vocês, que eles iam calçados com lindas botas, ou sapatos" - dizia meu pai -"Pelo contrário, andavam descalços como os índios. E na sola dos seus pés, aos poucos se formava um couro duro e resistente, onde até os espinhos difícilmente penetravam".

É claro que as picadas e os carreiros primitivos, ao longo do Rio dos Sinos, aos poucos se transformaram em estradas e importantes vias de comunicação, onde passava tudo que é gente, montarias e tropas de gado. As primitivas choupanas e pousadas, geralmente de 15 em 15 quilômetros, davam origem a alujamentos mais organizados, onde famílias se estabeleciam para servir os viajantes e os seus animais. Junto destes alojamentos, eram feitos currais para guardar os cavalos e as malas durante a noite. Galpões eram construídos para os viajantes dormir e refazer suas forças. Eram as connhecidas pousadas, que muitas vezes se transformavam em pequenos centros de comércio. Nestes galpões, era servido o tradicional chimarrão aos viajantes cansados.

"Foi assim, crianças" - terminava meu pai, - "que o avô e seus irmãos viajavam e trabalhavam".

E nunca mais esqueci aquelas palavras: "...viajavam com um saco de sal nas costas, cinqüenta, sessenta, cem quilômetros, a pé, pelo mato, de São Leopoldo até o Rio da Ilha".

Parece até que os antigos tinham mais jeito para contar as hitórias dos velhos tempos. Hoje as novelas da televisão abafam tudo. Até, por vezes, perdemos o jeito de contar aos nossos filhos, as coisas que aocnteciam antigamente.

Outra constatação que sinto, no final deste capítulo, é que:

É admirável como o ser humano, quando necessário, se pode contentar com pouca coisa. - Um saco de sal e pólvora! - Todo o resto, catavam ao longo da estrada: água, fogo, comiga, remédios, agasalho... O couro dos animais fazia parte essencial do uso cotidiano: roupas, bruacas, cintos, cordas, laços, esteiras... Pelegos eram usados como camas. As ervas serviam de remédio. O milho e a mandioca eram o pão de cada dia.

Assim viajavam os nossos antepassados.



(Benno Wagner - Volta às Raízes - Vol. I - Editora Rocha)

Cada louco com sua mania

Aqui vão algumas premissas e detalhes deste nosso despretensioso trabalho. Ele pretende, em primeiro lugar, ser um preito de gratidão à minha terra natal Taquara, onde me criei, onde está enterrada minha santa mãe, Maria Magdalena, mulher forte e corajosa, que gerou dez filhos...
Voltando às primeiras impressões de minha infância longínqua, vejo-a montada num cavalo zaino, galopando ao lado de meu pai, a caminho da igreja paroquial Bom Jesus, de Taquara, nos domingos e dias de festa.
Preito de gratidão também ao meu valoroso pai Jacob Ferdinando, crescido e criado nas cabeceiras da Picada Santa Rosa, no município de Taquara. Faleceu aos 83 anos, lúcido e forte. Era conhecido como "o velho Fernando", homem íntegro e intrépido. Dele posso testemunhar, que apesar de ter sido criado num engenho de álcool e cana de açúcar, e ter fabricado sempre os mais deliciosos vinhos coloniais, nunca tê-lo visto alterado por bebida alguma, das quais ele era fabricante exímio.
Longe de minha terra natal, desde os 13 anos, quando meu pai me levou para o Seminário de São Leopoldo, onde me ia formando com os sábios mestres jesuítas, e, onde comecei a ver que o mundo era muito grande. De lá, mais tarde parti para o Japão, para a Europa, para os Estados Unidos...
Nunca porém, me esqueci dos meus queridos pagos de Taquara... Daquela Picada Francesa, encostada nos morros vizinhos, de Santa Rosa, de Tucanos e de Rio da Ilha... onde descansam em paz todos os meus antepassados. Se abrir as porteiras dos velhos cemitérios desta região querida, logo me deparo com o nome de algum de meus parentes e antepassados. Lá eles descansam em paz, sob a sombra das velhas cruzes e lápides, últimas testemunhas de sua fé e laboriosidade.
Às vezes, penso até que foi bom ter estado ausente e longe de minha terra natal. Assim, hoje a vejo com olhos de saudade. Às vezes até penso que, como filho pródigo e ausente, aprecio melhor a paz e tranquilidade do lar paterno.
Hoje volto, trazendo minha colaboração e meu preito de gratidão. Prque, são o legado de muito trabalho, fé e dedicação à Pátria que criaram.
Permitam-me colocar aqui um episódio, talvez até um pouco hilariante, mas de um profundo sentido.
Estávamos outro dia, mais precisamente na tarde do ano novo, conversando em família, sobre as coisas de nossos antepassados... sobre o trabalho que eu estava planejando escrever. Então um sobrinho meu, muito interessado no assunto, indagou quem estava escrevendo este livro. Alguém observou, que era o tio Benno. Aí, meu mano Sebald, pessoa muito criteriosa e ponderada, observou:
_É, cada louco tem sua mania.
E, a conversa continuou e o sobrinho indagou mais:
_Qual será o título do livro?
Então, tive a oportunidade de, num tom hilariante, dar o troco ao mano, talvez baseado na minha filosofia de vida, de não ficar devendo... e respondi:
_O título o livro será: "Volta às Raízes" e, o autor, "Escrito por um louco".
Talvez fosse um troco meio forte. Mas entre velhos, o "fumo forte" às vezes é mais gostoso.
Pode até parecer uma loucura o que estou fazendo. Mas é uma loucura que faço de bom coração, por minha terra, por meus antepassados. E, mais por este Brasil que eles ajudaram a formar. É um legado que pretendo dar a meus filhos e a meus netos. É um legado do sociólogo e professor de história que sempre fui. E, como não sou médico, advogado ou técnico industrial, penso dar o meu legado de historiador.
É isso aí que posso deixar para a minha terra.
(Benno Wagner - Volta às Raízes - Vol I. Editora Rocha.)